Lula articula diálogo com líderes latino-americanos após proposta de Trump de classificar facções brasileiras como terroristas

Publicado em 12/03/2026 por Rádio Nova FM

Brasil e Mundo

Fonte: Radio Nova FM 87,9


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou contatos com líderes da América Latina após o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizar a possibilidade de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

Desde o início da semana, Lula manteve conversas telefônicas com a presidente do México, Claudia Sheinbaum, e com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro. Os dois países já tiveram cartéis de drogas rotulados como grupos terroristas estrangeiros pelo governo americano no ano passado.

A movimentação ocorre após Washington indicar que avalia incluir na lista de organizações terroristas internacionais duas das principais facções do Brasil: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Autoridades dos Estados Unidos afirmam que as organizações representam ameaça significativa à segurança regional e que medidas poderão ser tomadas contra indivíduos ligados às atividades consideradas terroristas.

Resistência do governo brasileiro

Interlocutores do governo brasileiro afirmam que o país não pretende aceitar a classificação e defendem que o combate ao crime organizado transnacional deve ocorrer por meio de cooperação policial e troca de informações entre os países.

Segundo integrantes do governo, a designação de terrorismo não encontra respaldo na legislação brasileira. A lei nacional prevê o enquadramento como terrorismo quando atos violentos são motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião — critérios que, na avaliação de Brasília, não se aplicam às facções criminosas.

Apesar de Lula poder buscar uma manifestação conjunta com aliados regionais, especialistas avaliam que a iniciativa teria pouco efeito prático, já que a decisão de classificar organizações como terroristas é unilateral do governo dos Estados Unidos.

O tema também foi tratado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em conversa com o secretário de Estado americano, Marco Rubio.

Tensão nas relações com Washington

A discussão surge em meio aos preparativos para uma possível visita de Lula aos Estados Unidos, que vem sendo negociada há meses, mas ainda sem data definida. Nos bastidores, o Palácio do Planalto avalia que setores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro estariam pressionando Washington a adotar a classificação, o que poderia gerar desgaste político para o governo brasileiro.

A designação de organizações como terroristas pelos EUA permite ampliar instrumentos de combate ao crime, como congelamento de ativos, aplicação de sanções financeiras, restrições de vistos, monitoramento de integrantes e criminalização do apoio material às atividades dessas organizações.

Embora a legislação americana não autorize automaticamente ataques militares com base nessa classificação, historicamente grupos rotulados como terroristas acabam se tornando alvo de operações militares dos EUA fora de seu território — o que preocupa autoridades brasileiras.

Precedente na América Latina

O receio do governo brasileiro está ligado a episódios recentes. Antes de uma operação militar em Caracas para capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, os Estados Unidos classificaram como terroristas as facções venezuelanas Tren de Aragua e Cartel de Los Soles. Na ocasião, o Departamento de Justiça americano chegou a acusar Maduro de liderar o grupo, mas posteriormente recuou.

Segundo críticos da política americana, o combate ao narcotráfico também foi utilizado como justificativa para o posicionamento de embarcações e aeronaves militares no Caribe, em operações que incluíram ataques a embarcações suspeitas de transportar drogas.

Debate regional

O tema deve ganhar espaço na próxima cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), marcada para 21 de março em Bogotá. Lula, Petro e Sheinbaum devem participar do encontro, onde a segurança regional e o combate ao narcotráfico estarão na pauta.

Apesar disso, diplomatas brasileiros avaliam que qualquer tentativa de aprovar uma declaração crítica às políticas de Washington pode enfrentar resistência de governos latino-americanos alinhados aos Estados Unidos.

Em notas oficiais sobre as conversas telefônicas, o Palácio do Planalto destacou apenas temas como integração regional, relações econômicas e cooperação energética. Assuntos mais sensíveis, como a classificação das facções brasileiras, não foram mencionados nos comunicados públicos.